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Stanford reacende polêmica sobre valor nutricional de orgânicos e convencionais com argumentos parciais

06/09/2012

Horta orgânica. Nutrição não só do alimento, mas também do ambiente, pela manutenção da biodiversidade e do equilíbrio ambiental. FOTO: TÂNIA RABELLO

Entre as matérias publicadas nos jornais e na web, e também as veiculadas na TV, esta semana, sobre o estudo realizado pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos – identificando que não há evidências científicas consistentes de que os alimentos orgânicos sejam mais nutritivos do que os alimentos convencionais –, uma das que mais bem ponderaram o assunto foi a publicada no Estado de S. Paulo, na editoria Vida, em 5 de setembro, e escrita pela repórter Mariana Lenharo.

Além desta reportagem, também o programa Em Pauta, comandado por Sérgio Aguiar, e debatido pelos jornalistas Gustavo Chacra, além de Mara Luquet e Eliane Catanhêde.

Chacra destaca que o estudo de Stanford NÃO CRAVA que os alimentos orgânicos sejam tão nutritivos quanto os convencionais. “A pesquisa faz questão de dizer que ‘talvez’ sejam igualmente nutritivos”, ressalta o jornalista.

O problema, porém, é o tratamento que se dá a este tipo de notícia.

Alguns sites investiram em títulos que desinformam o leitor, como “Pesquisa põe em xeque vínculo entre produto orgânico e saúde”,  discorrendo e cravando (mesmo que o próprio estudo não afirme isso categoricamente) que não há diferença nutricional entre orgânicos e convencionais.

Ou outro título, “Alimentos orgânicos não têm mais nutrientes do que os convencionais”, publicado no site da agência de notícias Reuters, e copiado e colado sem críticas por vários outros sites, inclusive os jornalísticos, também induzem o leitor apressado a acreditar nisto e pronto.

Matéria do site da Veja, que pelo menos se deu ao trabalho de mostrar o caminho das pedras para o leitor que quiser ver o estudo no original, há um argumento que fragiliza a pesquisa (que, na verdade, é uma compilação de vários estudos sobre o tema) e minimiza justamente uma das grandes vantagens dos orgânicos em relação aos convencionais: “A única vantagem aferida pelo estudo é que os alimentos orgânicos são menos expostos a agrotóxicos e a bactérias resistentes a antibióticos.” A Veja acha isso pouco?

Antes, o site da revista ainda dá uma informação errada: “Os índices de nutrientes e de pesticidas presentes nos dois tipos de produtos são similares”. O estudo diz justamente que os índices de pesticidas nos orgânicos são expressivamente menores (representam risco 30% menor de contaminação por agrotóxicos), embora o de nutrientes seja similar, fato sobre o qual todas as matérias se debruçaram.

Outro argumento que põe em dúvida o estudo é justamente o fato de ele não ter considerado, ao analisar alimentos orgânicos, questões ambientais e de bem estar animal, que são intrínsecos e exigência básica para quem quer produzir organicamente.

Além disso, é de pouca importância destacar que os orgânicos representam risco 30% menor de contaminação por agrotóxicos e que, segundo o estudo de Stanford, nas carnes de frango e de porco orgânicas havia menos bactérias resistentes a antibióticos?

Antibióticos são amplamente utilizados em criações convencionais, como “promotores de crescimento”. No Brasil, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), as vendas de medicamentos para suínos e aves representam 30% do total. Já as vendas de antimicrobianos (antibióticos) perfazem 18% de um faturamento total de R$ 3,415 bilhões.

Nos Estados Unidos, 80% dos antibióticos vendidos vão para a criação animal.

Muita gente, aliás, confunde esses promotores de crescimento com hormônios. É bom frisar que não se utilizam “hormônios” nas criações convencionais (como também erroneamente citou o site da Veja no mesmo artigo). Hormônios em criações animais são proibidos, pelo menos no Brasil. Quem os utilizar estará infringindo a lei.

Os antibióticos, ao contrário, são liberados e, em pequenas doses, são ministrados diariamente a frangos de corte e suínos, diretamente na ração. São esses antibióticos que, explicando de maneira simples, praticamente eliminam a flora intestinal benéfica (que filtraria nutrientes, privilegiando o equilíbrio do organismo) desses animais, permitindo que o alimento ingerido seja amplamente aproveitado e, com isso, o animal engorde com rapidez. Ou seja, por mais que a indústria afirme que tal prática não deixa resíduos nas carnes, talvez o principal “resíduo” de tal prática seja justamente criar bactérias resistentes a antibióticos – o que coloca torna cada vez mais difícil o desenvolvimento de medicamentos para combater bactérias, tanto as que atacam seres humanos quanto os animais.

Isso deve ser minimizado no estudo?

Outro ponto fundamental é todo o cuidado ambiental que os produtores orgânicos têm de ter em suas lavouras e criações – se não, simplesmente não conseguem a certificação e o selo emitido pelo Ministério da Agricultura. E isso o estudo não levou em consideração.

A nutrição, afinal

De todo modo, sobre orgânicos e nutrientes já era sabido que não há diferença significativa entre ambos. O leitor do meu blog deve ter visto a longa e detalhada entrevista feita com a nutricionista Elaine Azevedo, coordenadora do Portal Orgânico e especializada no assunto. Na entrevista, ela explica exatamente esta questão, que aflige tanto consumidores quanto não consumidores de orgânicos. Vale a pena reproduzir um trecho da entrevista para esclarecer quem ficou aflito a respeito.

PERGUNTA: Os alimentos orgânicos são mais nutritivos do que os convencionais?

DRA. ELAINE: Primeiro de tudo é bom lembrar que existem vários aspectos de qualidade do alimento orgânico. O valor nutricional é um deles. Mas existem outros, como toxicidade, que é o principal diferencial, durabilidade e características sensoriais, como sabor, cor e textura. Podemos dizer que, a princípio, os orgânicos não têm maior valor nutricional, e sim melhor valor nutricional. Vamos fazer uma relação com o ser humano. Quando comemos demais, não quer dizer que estejamos bem nutridos. Ao contrário. Pode surgir uma tendência à obesidade. E, se comemos pouco e mal, ficamos desnutridos. O ideal, então, é termos a qualidade e a quantidade de nutrientes adequada para a nossa espécie. Nas plantas é a mesma coisa. O solo deve fornecer o necessário, não o excesso. Um solo saudável, enriquecido com adubos orgânicos, é rico em muitos tipos de minerais. Os vegetais cultivados convencionalmente, à base de fertilizantes sintéticos – compostos unicamente de grandes quantidades de nitrogênio, fósforo e potássio de alta solubilidade, o adubo NPK –, acabam absorvendo grandes quantidades de nitrogênio do solo. Por isso, formam mais proteína, mas também mais nitrogênio livre, criando um desequilíbrio interno na planta. Esses vegetais que têm nitrogênio em excesso atraem mais pragas e por consequência tem-se que usar mais agrotóxicos para combatê-las. Ou seja, ter mais proteína não significa necessariamente ser um alimento mais saudável. Já a planta cultivada organicamente recebe e absorve somente os nutrientes de que precisa e tem um equilíbrio no valor nutritivo em geral. Não me refiro especificamente a carboidratos, lipídios e proteínas, que, tanto nos alimentos orgânicos quanto nos convencionais, são formados pela ação da luz solar, pela fotossíntese. Nisso eles podem ser muito semelhantes. Aliás, não são esperadas grandes diferenças de valor nutritivo entre orgânicos e convencionais.

PERGUNTA: Então o que diferencia o alimento orgânico do convencional em termos nutricionais, afinal?

DRA. ELAINE: É a qualidade do solo. Há pesquisas realizadas com alguns alimentos vegetais que comprovam a superioridade de minerais dos orgânicos. São poucas pesquisas ainda, mas nelas se provou que é no teor de mineral que o alimento orgânico pode se diferenciar do convencional. E existem estudos que mostram que o teor dos minerais nos alimentos diminuiu muito por causa dos métodos da agricultura convencional. Por isso os especialistas receitam cada vez mais suplementos sintéticos. Os solos estão pobres; os alimentos produzidos neles também.

PERGUNTA: Além do equilíbrio mineral, há mais alguma diferenciação entre o orgânico e o convencional?

DRA. ELAINE: Sim. Também é comprovado por meio de pesquisas que os alimentos orgânicos têm maior teor de fitoquímicos, substâncias como isoflavona, sulforaceno e licopeno, foco da nutrição funcional. No tomate orgânico, por exemplo, há maior teor de licopeno. Essas substâncias têm diferentes funções no organismo e na planta elas funcionam como um sistema de defesa; ou seja, o sistema imunológico da planta produz fitoquímicos. Os vegetais orgânicos têm que desenvolver um sistema de defesa mais eficiente porque não recebem o agrotóxico que controla as doenças. Novamente, comparando com o organismo humano, se o corpo está bem nutrido (como uma planta orgânica), ele tem um sistema de defesa que produz anticorpos de forma mais eficiente. A planta produz fitoquímicos. E, no caso de alimentos de origem animal, os orgânicos têm, comprovadamente, gordura de melhor qualidade, porque os animais criados organicamente têm a possibilidade de caminhar, ciscar, se movimentar. Aí também comparo conosco: quando fazemos exercícios regularmente, temos gordura corporal de melhor qualidade. Há várias pesquisas que comprovam que os alimentos orgânicos de origem animal (carnes, leites, ovos) têm taxas iguais de ômegas 3 e 6, maior teor de ácidos graxos insaturados e menores teores de ácidos graxos saturados. É bom ressaltar que o teor de gordura de proteína animal orgânica não é maior nem menor. É melhor.

PERGUNTA: São gorduras melhores para o nosso organismo absorver, é isso?

DRA. ELAINE AZEVEDO: A gordura insaturada eleva o nível de lipoproteína de alta densidade no sangue (HDL ou “colesterol bom”) e reduz o nível de lipoproteína de baixa densidade no sangue (LDL, ou “colesterol ruim”). Quando citei a relação entre ômegas 3 e 6, que é de um para um, isso indica também que a gordura é de melhor qualidade. A relação de equilíbrio entre os dois tipos de ácido linoléico (3 e 6) ajuda a evitar os problemas associados ao consumo excessivo de ômega 6 na dieta. Entre tais problemas estão as doenças cardíacas; a arteriosclerose; alguns tipos de câncer; hipertensão; colite e alguma doenças ósseas São assuntos bastante técnicos e o mais fácil é dizer: são alimentos que apresentam gordura de melhor qualidade, uma vez que o animal se exercita.

PERGUNTA: Há pesquisas que comprovam efetivamente tudo isso?

DRA. ELAINE AZEVEDO: Sim. Há várias que demonstram o teor aumentado de fitoquímicos e a qualidade da gordura animal. Em alguns vegetas pesquisados também foi comprovado o maior equilíbrio de minerais. No teor de proteínas, carboidratos e lipídios, porém, se fala em controvérsias na pesquisa. É uma controvérsia que, na verdade, não vai se diluir, porque não se esperam diferenças entre orgânicos e convencionais no quesito valor nutricional. E é um aspecto difícil de pesquisar. O simples transporte do alimento, a quantidade de luz solar ou água que a planta recebe já mudam o valor nutricional, então é um aspecto que precisa ter muito controle para a realização de estudos comparativos. Mas de qualquer maneira não é sob esse aspecto que se pode dizer: ah, é aí que os orgânicos se destacam. Não é por aí. Eu insisto que o valor nutricional não é o aspecto mais importante para definir a qualidade de um alimento. É muito reducionista.

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