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Eles cuidam da água que você bebe, os agricultores em áreas de mananciais na capital paulista

30/07/2012

Diná e seus copos de leite: em busca de uma alternativa orgânica e sustentável na APA Capivari-Monos

Mudanças nas práticas de cultivo e a adesão de agricultores a técnicas mais sustentáveis têm garantido, na região de mananciais da capital paulista, que a água que chega aos paulistanos comece a se tornar menos poluída – pelo menos com agrotóxicos e restos de adubos químicos. São projetos que contribuem para uma agricultura mais responsável, tanto com relação à preservação ambiental, quanto com relação à pureza da água dos mananciais, trazendo benefícios à saúde de quem planta e de quem consome os alimentos ali produzidos.

Um projeto coordenado pela Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo (AAO-SP), por exemplo, chamado Água Doce, vem conseguindo modificar práticas tão arraigadas quanto prejudiciais ao meio ambiente no extremo sul de São Paulo, onde estão duas das principais represas que abastecem a capital paulista: Billings e Guarapiranga. Ali concentram-se 311 agricultores, segundo levantamento da Prefeitura de São Paulo, muitos dedicados a práticas poluentes, como aplicação sem critérios de agrotóxicos, além de adubação química intensiva.  Sem contar grandes cultivos hidropônicos, cuja água utilizada, repleta de nitratos, vai direto para os mananciais.

No Bairro Embura, em Parelheiros, eminentemente rural, nos extremos da zona sul paulistana, às margens da Represa Billings, vários produtores de hortaliças têm por hábito aplicar agrotóxicos nas lavouras “por prevenção”.

Muitos banham semanalmente suas hortaliças com veneno só porque seus pais faziam igual, ou porque representantes dos fabricantes de pesticidas conseguem se imiscuir de tal maneira na vida deles que, sem ostensiva assistência técnica oficial, acabam aceitando comprar e aplicar agrotóxicos.

O técnico agropecuário Hamilton Trajano Cabral, especializado em cultivos orgânicos, aceitou o desafio de tentar modificar um pouco a cabeça dos produtores, que viam suas despesas aumentar conforme a terra respondia menos às adubações químicas e, infértil, produzia plantas fracas, cada vez mais vulneráveis ao ataque de pragas e doenças.

Trajano coordenou, pela AAO-SP, o projeto Água Doce, entre 2009 e 2011, trazendo aos agricultores uma nova proposta de cultivo e desintoxicação do solo. “É difícil convencê-los de que é possível reduzir e até eliminar a aplicação de agrotóxicos nas lavouras”, diz o técnico agropecuário. Foi o que conseguiu fazer com alguns dos produtores do Bairro Embura. A ideia inicial foi substituir, aos poucos, a adubação química intensiva pelo biofertilizante, uma calda riquíssima em micro-organismos benéficos, que pode ser feita na propriedade, e permite a multiplicação da vida no solo, que por tabela beneficia as plantas, que ficam mais nutridas e menos dependentes de adubos químicos e de agrotóxicos.

O casal de agricultores Marcelo Yuzo Yoneyama e Fabiana Yoneyama topou participar da experiência. Hoje colhem, além dos resultados positivos, na horta de 3 hectares, alface, couve, brócolis, mostarda, coentro, beterraba, rabanete, rúcula, salsinha, almeirão e cebolinha, entre outras hortaliças. “Antes a gente só plantava praticamente alface; não sabíamos da importância da rotação de culturas para melhorar o solo e a saúde das plantas”, diz Marcelo.

Com o biofertilizante, a economia com adubo químico foi expressiva: “Toda semana eu aplicava de 6 a 7 sacas de adubo químico na área toda”, conta Marcelo. “Agora conseguimos reduzir para 4 sacas por quinzena.”

Com os agrotóxicos, também houve expressivo recuo. “Uma vez por semana a gente aplicava fungicida na alface (anteriormente, o casal só plantava principalmente alface, couve e brócolis, que vendia para um atravessador), estando a planta com doença ou não”, lembra Marcelo. “Era costume.”

As doenças que Marcelo tentava prevenir eram a podridão da barra da saia da alface, provocada por um fungo. “Depois que comecei a aplicar o biofertilizante, fomos vendo que a planta não ficava doente e paramos com as aplicações”, diz o produtor. “Agora ficou bem melhor”, confirma sua mulher, Fabiana. “A gente mudou o pensamento. Antes a gente começava cedo e ia até o fim da tarde aplicando veneno. Agora, há uns dois anos não precisamos mais fazer isso”, orgulha-se Fabiana, que destaca também a grande economia que isso representou. “No total das despesas, uns 40%”, diz.

Marcelo lembra que o hábito contumaz de aplicar agrotóxicos veio de seus pais, que nem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) usavam. “Eles aplicavam descalços; a unha deles ficava amarela por causa do veneno”, conta. “Eu falo para eles observarem a lavoura antes de aplicar qualquer coisa”, ensina o técnico agropecuário Hamilton.

Com a diversificação e a boa qualidade das hortaliças, Fabiana e Marcelo arriscaram-se agora a abrir uma pequena loja para vender a produção no próprio bairro Embura. “Estamos indo bem”, garante Fabiana, que conta que os atravessadores que vêm comprar suas hortaliças comentam sobre a qualidade e o viço. Estive na propriedade no meio de junho, quando estava chovendo bastante na região. “Muita gente nem tem hortaliça por causa da chuva e a gente tem conseguido produzir.”

“Até sobrou um dinheirinho para instalar uma antena de celular para a TV”, diz, feliz, Marcelo. “É a TV sem chuvisco”, brinca.

Num sítio dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, a situação ambiental é a ainda mais delicada para o casal Yokinobu Otsuka e Diná Otsuka. Com a produção única de belíssimos copos-de-leite, que se adaptam muito bem à região e não demandam nenhuma gota de veneno, Yokinobu tem conseguido tocar a propriedade. Que é grande, porém, para os padrões da região: 8 hectares, a maior parte planos. Agora, procura alguém que se interesse em cultivar hortaliças em parte da área – “Mas tem de ser sem uso de defensivos e adubo químico”, exige o agricultor – e, na outra parte, continuar com as ornamentais. Antes do Projeto Água Doce, Yokinobu reservava um galpão para adubos químicos e defensivos. Atualmente, ficou tão empolgado com o biofertilizante que produziu, ele mesmo, várias bombonas, que estão reservadas para os próximos cultivos.

“Agora que meu filho veio para cá vamos reativar vários cultivos”, anima-se ele, cuja família já foi considerada “os reis do crisântemo”. “Tínhamos 17 mil metros quadrados de estufa com crisântemo”, conta. “Aplicávamos 3 mil litros por semana de agrotóxicos nas flores”, lembra ele, acrescentando que via pássaros mortos ao longo das linhas de plantio por causa do veneno. “De dois anos para cá parei com as estufas, porque usava muito veneno, fora a energia elétrica necessária para manter as estufas iluminadas – gastava 10 mil kilowatts por mês de energia”, diz. Com o copo de leite e o biofertilizante, foi o fim da aplicação de adubo químico e agrotóxicos, garante Yokinobu. “O Hamilton nos orientou e jogamos o biofertilizante na fertirrigação”, conta. Hoje, o floricultor colhe 200 maços com 10 flores cada de copos-de-leite por semana, que vende na Ceagesp, na zona oeste da capital.

Ele ainda está definindo que tipo de atividade agrícola vai instalar na área ociosa. “Só sei que, independentemente do que for, não vou usar nem veneno nem adubo químico. Vai ser tudo orgânico”, finaliza.

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From → Tânia Rabello

4 Comentários
  1. Débora R. permalink

    Olá Tânia,
    Faz tempo que procuro um meio de te contatar, há um email que você possa nos passar, por favor??

  2. Nacho ABAD VELASCO permalink

    Bon día. MI nombre es Nacho ABAD VELASCO, trabajo en una empresa española especialista en banana orgánica de rep Dominicana y también en menor medida de Ecuador y Africa. Quisiera saber si usted conoce productores orgánicos brasileños de banana a los que yo pudiera contactar. Muchísimas gracias y un fuerte saludo.

    • Sr. Nacho. Fale com a Associação de Agricultura Orgânica (AAO-SP), contatos: Atendimento »atendimento@aao.org.br; e também com o sr. Marcelo Laurino, do Ministério da Agricultura, marcelo.laurino@agricultura.gov.br. Ele tem uma relação de produtores orgânicos no Brasil e pode indicar-lhe os que produzem banana.
      Obrigada. Tânia

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